quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Confrontos em frente ao Parlamento Grego
O dia de greve geral na Grécia contra o plano do FMI e do governo fica marcado pela forte adesão e pelos confrontos. Na capital, os protestos juntaram 100 mil pessoas, com vários grupos a enfrentarem a polícia junto ao parlamento e em muitos outros pontos da cidade.
Ao fim da manhã de quarta-feira, foi divulgada a notícia da morte de três pessoas durante um incêndio num banco no centro de Atenas. Apesar do responsável pela polícia não ter apontado as causas, a imprensa internacional afirma que o incêndio ocorreu após um ataque com cocktails molotov lançados para o interior do edifício.
Logo pela manhã, cerca de 100 mil pessoas manifestaram-se em vários pontos da capital grega em protesto contra as medidas de austeridade negociadas pelo governo, FMI e Banco Central Europeu. O centro de Atenas converteu-se no palco de confrontos com a polícia, lançamento de cocktails molotov, muitas montras partidas e graffitis apelando à resistência contra as medidas do governo de Giorgos Papandreou.
O protesto alastrou a outras cidades, como Salónica, onde se manifestaram 20 mil pessoas e se registaram igualmente confrontos com a polícia grega.
A greve está a ter uma grande adesão, com a paragem dos transportes aéreos, marítimos e ferroviários, bem como da maioria das escolas e serviços públicos. Também a imprensa aderiu a esta greve geral, interrompendo os serviços noticiosos de rádio e TV. Em Atenas, os transportes públicos funcionaram com horário reduzido, de modo a permitir a chegada dos manifestantes aos locais dos protestos convocados pelas centrais sindicais no centro da cidade.
"Este comício teve o dobro das pessoas do maior comício alguma vez realizado na Grécia", disse Spyros Papaspyros, do sindicato da função pública ADEDY. "Amanhã à tarde vamos protestar em frente ao Parlamento e se o governo não nos ouvir, pode contar com mais acções de luta na próxima semana", acrescentou o sindicalista citado pelo Wall Street Journal.
O plano do FMI para financiar a economia grega, avaliado em 110 mil milhões de euros, prevê medidas de corte na despesa pública grega no valor de 30 mil milhões, atingindo fortemente os salários e as pensões, a subida imediata do IVA para 23% e a liberalização das leis laborais. O parlamento vai votar esta quinta-feira o pacote de austeridade do governo socialista.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Areia para os olhos...
Aqui ficam algumas das petas mais populares dos últimos tempos:
1 :: A crise foi criada porque alguns banqueiros foram gananciosos «demais» e enganaram o sistema
A ganância é a base do sistema capitalista, foi a procura de lucros cada vez mais altos que levou a que os especuladores ignorassem os riscos cada vez maiores de colapso do sistema. A crise expôs algumas fraudes, mas ela teria existido mesmo sem ilegalidades.
2 :: A especulação gera investimento e crescimento económico
Os investimentos puramente financeiros só respondem a lucros, ignorando os bens produzidos. Isto pressiona as empresas a uma gestão orientada para o lucro de curto prazo e para um desrespeito cada vez maior pelo papel social da empresa, pelos direitos dos trabalhadores e pelas práticas ambientalmente sustentáveis. Estes fundos levam os mercados a subidas vertiginosas, criando as chamadas «bolhas especulativas». Ao mínimo sinal de crise, os fundos retiram-se e a economia real é arrastada pelo repentino bloqueio dos financiamentos. A especulação financeira é injusta para todos os agentes da economia real e aumenta muito a instabilidade do sistema.
3 :: A irresponsabilidade dos consumidores e o seu endividamento exagerado provocou a crise.
Todos vemos diariamente anúncios a tentar «impingir-nos» créditos. O sistema financeiro tem vindo a lucrar com o endividamento das famílias, que não têm outra forma de fazer face às suas necessidades numa altura em que os salários são baixos e o emprego é cada vez mais precário.
3 :: A crise e a escassez de fundos obriga o Governo a privatizar serviços básicos como a saúde, segurança social e educação.
O dinheiro dos contribuintes que tem sido usado para salvar bancos pode, e deve, servir para assegurar que estes serviços permanecem abertos e acessíveis a todos, protegendo as pessoas com mais necessidades, que são as mais afectadas pelas crises. A privatização dos serviços de que todos precisamos só serve para gerar lucros garantidos a grandes empresas. E se estas falham, é de novo o Estado que vem assumir os seus prejuízos e garantir que os serviços não desaparecem…
5 :: O dinheiro público deve ser usado para salvar todo e qualquer banco, independentemente da sua dimensão e do tipo de negócios em que se envolve.
Os bancos são peças importantes do sistema económico e a sua falência pode ter consequências graves, mas isso só mostra que as suas actividades devem ser fortemente controladas. Não é verdade que a falência de qualquer banco leve à derrocada de todo o sistema, nem que o Estado deva salvar bancos que gerem investimentos de base fortemente especulativa. Por outro lado, nos casos em que seja mesmo indispensável um apoio do Estado, este deve impor condições que garantam que os bancos dirigem a sua actividade para o apoio às empresas, em dificuldades por causa da crise que eles próprios criaram.
6 :: É impossível controlar ou taxar os capitais financeiros.
O controlo dos movimentos de capitais permite estabilizar os mercados, evitar bolhas especulativas e voltar a direccionar os investimentos para empresas reais, que produzam qualquer coisa, em vez de meros investimentos de curto prazo baseados em cotações de bolsa. Além disso, os mercados de capitais podem ser sujeitos a regulamentações que promovam a transparência e a legalidade das operações, nomeadamente o fecho dos paraísos fiscais e o levantamento do sigilo bancário.
7 :: É impossível controlar ou taxar os capitais financeiros.
O controlo dos movimentos de capitais permite estabilizar os mercados, evitar bolhas especulativas e voltar a direccionar os investimentos para empresas reais, que produzam qualquer coisa, em vez de meros investimentos de curto prazo baseados em cotações de bolsa. Além disso, os mercados de capitais podem ser sujeitos a regulamentações que promovam a transparência e a legalidade das operações, nomeadamente o fecho dos paraísos fiscais e o levantamento do sigilo bancário.
8 :: Um mercado de trabalho «flexível”», com salários baixos e sem segurança para os trabalhadores é mais eficiente
Ao que os empresários chamam flexibilidade nós chamamos precariedade: contratos de trabalho temporários ou inexistentes, salários reduzidos e cada vez maior facilidade no despedimento de trabalhadores. Pessoas exploradas e com a vida a prazo nunca terão o empenho e a ligação ao seu trabalho que produz a verdadeira eficiência. Não podem investir na sua formação, nem desenvolver outros aspectos da vida importantes como a vida familiar ou cívica. Ter trabalhadores formados, integrados em equipas que desenvolvem projectos comuns ao longo do tempo e com salários dignos é a forma mais eficiente (e correcta) de uma economia crescer.
9 :: Os/as migrantes são culpados pelo desemprego e baixos salários
O problema da economia portuguesa é muito mais profundo do que a proveniência dos trabalhadores. Uma economia saudável encaixa os que chegam, porque também participam nela, consomem, produzem, pagam impostos e contribuem para a sustentabilidade da Segurança Social. Quanto maior for a igualdade, mais positiva é a sua participação.
Por outro lado, tem acontecido que os imigrantes ocupam os lugares que os portugueses não procuram.
A troca de produtos alimentares em bolsa favorece os pequenos produtores e disponibilidade de alimentos para toda a população mundial.
A especulação sobre produtos alimentares como o trigo ou a soja leva à quebra dos seus preços a níveis inferiores aos custos de produção, retirando pequenos e médios produtores do mercado e promovendo monopólios que, em seguida, inflacionam os preços dificultando o acesso dos consumidores.
10 :: Os transgénicos vão acabar com a crise alimentar e a fome.
A fome no mundo tem como causa a má distribuição e o desperdício dos alimentos. Há cinco multinacionais que exercem um controlo cada vez maior sobre o sistema alimentar global através de um regime de patentes sobre a vida e as sementes transgénicas, com consequências imprevisíveis para a biodiversidade e a saúde humana. Por outro lado, têm exercido pressões políticas e manipulações financeiras que contribuem para a fusão dos mercados da energia e dos alimentos, promovendo a utilização de agrocombustíveis. Os cereais são progressivamente utilizados para alimentar automóveis ao invés de pessoas, agravando os problemas da fome.
Rede «Que Alternativas?»
fonte: http://ptattac.wordpress.com/O estado a que chegámos...
«Não foi para isto que se fez o 25 de Abril», afirmou recentemente o ministro da Justiça, Alberto Martins, a propósito das fugas de informação que violam o segredo de justiça [1] . Mas a frase repete-se por aí, dos desabafos entre estranhos nos transportes colectivos às conversas mais ou menos privadas que unem as pessoas para quem a mais forte memória, vivida ou transmitida, de um tempo em que como comunidade nos empenhámos na construção de um futuro de liberdade e justiça social foi, justamente, o 25 de Abril.
O sufoco que se instalou na vida de todos os dias e o aparente bloqueio de qualquer alternativa que possa visar o bem-estar colectivo contrapõe-se hoje à sensação, naquele período experimentada, de abertura de um campo de possibilidades e de expectativas em relação a um futuro que só se imaginava melhor.
Numa primeira fase da crise, parece que estivemos concentrados nas suas dimensões mais sectoriais (justiça, bancos, emprego, educação, saúde, etc.), mas à medida que o tempo vai passando vamos ligando as pontas dos fios que unem os sectores e torna-se patente que existe um problema de fundo, estrutural.
O resultado é que, em 2010, vamos comemorar o Dia da Liberdade em más condições socioeconómicas para nos constituirmos como sujeitos livres. Vamos comemorar o Dia do Trabalhador como desempregados, precários ou trabalhadores em perigo constante de perda de direitos. Vamos comemorar o Centenário da República num quadro de erosão dos valores republicanos que deviam estar associados ao conceito e ao cuidado da «coisa pública». Vamos comemorar o Ano Internacional da Biodiversidade sem verdadeiras medidas globais para assegurar a sustentabilidade ambiental dos ecossistemas.
E vamos comemorar o Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social numa Europa que se recusa a olhar para as conexões sistémicas entre as vantagens do seu centro e o desastre das suas periferias [2] e que, em vez disso, procura impor aos governos dos países em dificuldades, com a ajuda de agências de notação, a adopção de programas de austeridade assimétricos e socialmente injustos. Programas que protegem o capital financeiro e os sectores mais responsáveis pela actual crise e, numa ironia macabra, diminuem ou retiram até, justamente aos pobres e excluídos, os mecanismos que ainda subsistem de protecção social.
O caso de Portugal é, a este título, paradigmático. No país com maior desigualdade de rendimentos da União Europeia e com níveis assombrosos de pobreza, e até de pobreza laboral, o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) optou por combater o défice reduzindo cegamente os apoios sociais. O sociólogo Pedro Adão e Silva já classificou essa solução como «ideologicamente errada e politicamente preguiçosa», clarificando a escolha de fundo que estava em causa na elaboração do documento: «garantir a sustentabilidade de direitos ou, tomando o PEC à letra, fazer regressar a rede de mínimos sociais à lógica discricionária do passado» [3]. O economista José Reis, por seu lado, afirma que «o PEC português tem opções controversas, orientações desequilibradas e consequências injustas e assimétricas», motivo mais do que suficiente para se intensificar o debate sobre as medidas que prevê (ver artigo nesta edição).
A «solução preguiçosa» é, de facto, preocupante. Porque não se trata de uma «preguiça» indolente, que possamos associar a inacção, mas antes de uma preguiça activa, que faz lembrar a semântica bíblica que a considera um pecado capital (como oposição directa ao amor a Deus). No contexto do PEC, e face a um desemprego galopante, essa «preguiça» sinaliza mesmo uma falha, senão mortal, decerto moral: é uma má escolha e reifica uma oposição directa ao contrato social em que as democracias fundaram a legitimidade da representação popular e para cujo funcionamento criaram as instituições democráticas que conhecemos.
Não é só uma cedência ao facilitismo; é a proposta (que alguns saudaram como «corajosa») de que se quebre o consenso em torno do Estado social e da finalidade, partilhada pela comunidade política em que nos revemos, de gerar bem-estar para todos, de forma digna, inclusiva e sustentável. Mas a gravidade deste programa − que na verdade não foi directamente sufragado e está até em contradição com o que venceu as eleições − só pode ser apreendida se juntarmos, às medidas que reconfiguram direitos e prestações sociais, as que enveredam por uma plano de privatizações que, a médio prazo, privam os poderes públicos de meios indispensáveis para, justamente, poderem sustentar a provisão de serviços públicos e prestações sociais.
A tragédia é conhecida, pois a receita liberal há muito que vem sendo experimentada: as contas públicas acabam por perder as fontes de receitas das empresas que eram lucrativas; o Estado assume parte dos riscos que os privados se recusam a incorporar; a gestão privada contraria qualquer ilusão que pudesse existir de maior eficiência ou qualidade e, em troca, os cidadãos vêem-se confrontados com serviços mais caros e, frequentemente, de pior qualidade; por fim, fora de qualquer lógica de inclusão social e coesão territorial, que só as políticas públicas podem garantir, são progressivamente eliminados da actividade privada os segmentos não lucrativos que o orçamento de Estado não cubra.
O estado a que chegámos é, de facto, uma encruzilhada. Convoca a comunidade política que somos a regressar à discussão das finalidades que nos unem e a fazer a escolha, que não é nova, entre lógicas públicas de defesa de interesses comuns, que se apropriem do Estado, mas sem o considerarem a única esfera da organização e da participação dos cidadãos, e lógicas de interesses privados, que nos atomizam cada vez mais em estratégias individuais de competição, e em resultado das quais os que se saem sempre bem são os que já partiram com múltiplas vantagens para a contenda (mesmo que as narrativas se apressem a glorificar a excepção, o self-made man).
Os portugueses que foram obrigados pela crise a cancelar seguros de saúde, por exemplo, e que agora lêem nos jornais as desvantagens dos novos produtos alternativos que o mercado lhes propõe («cartões de desconto»), não devem estar longe de se juntar, entre outros, aos desiludidos dos fundos de pensões, ou aos trabalhadores precários atirados para o desemprego, numa mais clara compreensão da importância de defender a sustentabilidade dos serviços públicos e das prestações sociais. Raras vezes chegamos a encruzilhadas tão decisivas… A que estado queremos chegar?
sexta-feira 9 de Abril de 2010
Notas
[1] «O Estado de Direito não é isto», Expresso, 2 de Abril de 2010.
[2] Ver Costas Lapavitsas, Nuno Teles e Eugénia Pires, «O euro e a política da estagnação: uma tragédia que não é só grega», Público, 28 de Março de 2010.
[3] «A solução preguiçosa», Diário Económico, 23 de Março de 2010.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
A Crise por Stiglitz
Um dia surgirá o momento em que as ameaças urgentes colocadas pela crise do crédito tornar-se-ão menos relevantes e a tarefa principal será encontrar uma solução para o futuro económico. Este será um momento perigoso. Por detrás do debate sobre políticas futuras está o debate sobre a História - um debate sobre as causas da situação actual. A batalha pelo passado determinará a batalha pelo presente. Por isso, é crucial entender a história correctamente.
Quais foram as decisões cruciais que conduziram à crise? Foram cometidos erros em cada encruzilhada - tivemos o que os engenheiros chamam "falha de sistema", quando não uma única, mas uma cascada de decisões origina um resultado trágico. Vejamos cinco momentos-chave.
Primeiro: Despedimento do presidente
Em 1987, a Administração Reagan decidiu remover Paul Volcker do cargo de Presidente do Conselho da Reserva Federal e designou Alan Greenspan para o seu lugar. Volcker tinha feito aquilo que os banqueiros centrais devem fazer. Sob o seu mandato, a inflação desceu de mais de 11% para 4%. No mundo dos bancos centrais, isto deveria ter-lhe garantido uma nota de "excelente" e assegurado o seu segundo mandato. Mas Volcker também compreendeu que os mercados financeiros precisam de ser regulados. Reagan quis alguém que não acreditasse nisto e encontrou-o no devoto de Ayn Rand, o filósofo objectivista e fundamentalista do comércio livre.
Greenspan teve um papel duplo. O Fed controla a torneira do dinheiro e, nos primeiros anos desta década, ele abriu-a ao máximo. Mas o Fed é também uma entidade reguladora. Se se nomeia alguém anti-regulamentação como executor, sabemos que tipo de regulação vamos ter. Um excesso de liquidez combinado com a falta de regulamentação provou-se uma receita desastrosa.
Greenspan esteve no cargo durante não uma mas duas bolhas financeiras. Depois de a bolha tecnológica ter rebentado em 2000/2001, ele ajudou a encher a bolha do imobiliário. A primeira responsabilidade de um banco central deveria ser manter a estabilidade do sistema financeiro. Se os bancos emprestam com base em preços de bens artificialmente altos, o resultado pode ser um colapso - como estamos a ver agora e como Greenpan deveria saber. Tinha várias das ferramentas que precisava para lidar com a situação. Para lidar com a bolha da alta-tecnologia, poderia ter aumentado as margens de segurança (quantidade de dinheiro que as pessoas têm de depositar para comprar acções). Para evitar a bolha imobiliária, poderia ter limitado os empréstimos predatórios a famílias de baixos rendimentos e proibir outras práticas insidiosas (os empréstimos sem documentação - ou "mentirosos", os empréstimos só de juros e outros). Isto teria ido bastante longe para nos proteger. Se não tinha os instrumentos necessários para o fazer, deveria tê-los pedido ao Congresso.
Obviamente, os problemas do nosso sistema financeiro não residem unicamente nos empréstimos. Os bancos fizeram mega-apostas uns com os outros através de instrumentos complicados como derivados, credit-default swaps e por aí adiante. Com estes, uma parte paga a outra, no caso de um determinado evento acontecer - por exemplo, se o Bear Stearns for à falência ou se o dólar subir. Estes instrumentos foram criados para ajudar a controlar o risco, mas também podem ser usados para jogar. Assim, se alguém se sente confiante em que o dólar vai cair, pode apostar de acordo com esse palpite, e se o dólar efectivamente cair, os lucros disparam. O problema está em que com esta complicada interligação de apostas de grande magnitude, ninguém conseguia saber qual era o estado financeiro dos outros. Sem surpresa, o mercado de crédito congelou.
Também aqui, Greenspan teve o seu papel. Quando fui presidente do Grupo de Conselheiros Económicos durante a administração Clinton, servi no comité dos maiores reguladores financeiros federais, um grupo que incluía Greenspan e o Secretário do Tesouro Robert Rubin. Já naquela altura, era claro que os derivados representavam uma ameaça. Não afirmámos como o fez memoravelmente Warren Buffett - que via os derivados como "armas financeiras de destruição massiva" - mas tivemos em conta o seu ponto de vista. Não obstante, considerando o risco, os desreguladores no comando do sistema financeiro - no Fed, na Securities and Exchange Commission (SEC) , e em todo o lado - decidiram não fazer nada, pois receavam que qualquer acção interferisse com a "inovação" no sistema financeiro. Mas inovação como "mudança" não tem valor inerente. Tanto pode ser má (os empréstimos "mentirosos" são um bom exemplo) como boa.
Segundo: Deitar Abaixo as Paredes
A filosofia da desregulamentação iria pagar dividendos inconvenientes nos anos seguintes. Em Novembro de 1999, o Congresso revogou a Lei Glass-Steagall - o culminar do esforço do lóbi de 300 milhões de dólares da indústria banqueira e de serviços financeiros, liderado no Congresso pelo Senador Phil Gramm. A Lei Glass-Steagall separava os bancos comerciais (que emprestam dinheiro) dos bancos de investimento (que organizam as vendas de acções e títulos); tinha sido elaborada após a Grande Depressão para impedir os excessos daquela era, incluindo graves conflitos de interesses. Por exemplo: sem separação, se uma empresa cujas acções tenham sido emitidas por um banco de investimento, com o seu forte apoio, tiver problemas, o seu ramo comercial não iria sentir pressão para emprestar dinheiro, talvez insensatamente? Não é difícil antever uma espiral crescente de más decisões. Eu opus-me à revogação da Lei Glass - Steagall. Os proponentes efectivamente disseram: "confiem em nós: nós vamos criar Muralhas da China para impedir que os problemas do passado voltem a acontecer". Como economista, com certeza que possuía um elevado grau de confiança, confiança no poder dos incentives económicos para dobrar o comportamento humano para o interesse próprio - para o interesse próprio a curto prazo e a qualquer taxa, em vez do "interesse próprio correctamente entendido" de Tocqueville.
A consequência mais importante da revogação da Lei Glass-Steagall é indirecta - está na forma como a revogação mudou uma cultura. Não é suposto os bancos comerciais aventurarem-se em alto risco; é suposto fazerem a gestão do dinheiro das pessoas de modo bastante conservador. É perante esta ideia que o governo concorda em pagar a conta quando estes quebram. Por outro lado, os bancos de investimento têm tradicionalmente controlado o dinheiro dos ricos - aqueles que podem correr maiores riscos no sentido de obter maiores rendimentos. Quando a revogação de Glass-Stealgall juntou os bancos comerciais e de investimento, a cultura de banco de investimento saiu vencedora. Houve uma procura de altos rendimentos que poderiam ser obtidos apenas através de altas alavancas e riscos.
Existem outros passos importantes no caminho da desregulamentação. Um foi a decisão de Abril de 2004 tomada pela Securities and Exchange Commission, num encontro frequentado por praticamente ninguém e largamente ignorado na altura, que permitiu aos bancos de investimento aumentar o seu rácio dívida/capital (de 12:1 para 30:1 ou mais) para que pudessem comprar mais títulos de hipotecas, inflacionando a bolha do imobiliário durante o processo. Ao concordar com esta medida, a SEC apoiou as virtudes da auto-regulação: a noção peculiar de que os bancos podem controlar-se a si próprios. Auto-regulação é absurdo, como admite agora Alan Greenspan, e na prática não consegue em caso algum identificar riscos sistémicos - o tipo de riscos que se levantam quando, por exemplo, os modelos usados por cada um dos bancos na gestão das suas carteiras indicam a todos os bancos para venderem determinados títulos de uma só vez.
À medida que nos vamos despindo de velhas regulações, não fizemos nada relativamente aos novos desafios colocados pelos mercados do século XXI. E o desafio mais importante foi colocado pelos derivados. Em 1998, o chefe da Commodity Futures Trading Commission, Brooksley Born, apelou por tal regulação - uma preocupação que se tornou urgente depois de o Fed, no mesmo ano, ter elaborado o bailout (plano de salvamento) do Long-Term Capital Management, um hedge-fund cuja falência de mais de um bilião de dólares (milhão de milhão) ameaçou os mercados financeiros globais. Mas o Secretário do Tesouro Robert Rubin, o seu ajudante, Larry Summers e Greenspan foram inexoráveis e bem sucedidos na sua oposição. Não foi feito nada.
Terceiro: Aplicar as sanguessugas
Surgiu então o corte de impostos de Bush, primeiro em 7 de Junho de 2001, seguido de uma nova entrega dois anos depois. O presidente e os seus conselheiros aparentemente acreditam que a redução de impostos, especialmente para americanos e empresas com altos rendimentos, seria a cura para qualquer doença económica - é o equivalente moderno das sanguessugas. A redução de impostos teve um papel principal na formação das condições por detrás da actual crise, porque fez pouco para estimular a economia, o verdadeiro estímulo ficou nas mãos do Fed, que executou a tarefa através de taxas de juro baixas e liquidez sem precedentes. A guerra no Iraque tornou as coisas piores, pois conduziu à subida dos preços do petróleo. Uma vez que a América é tão dependente de petróleo importado, tivemos de gastar vários milhares de milhões de dólares extra para comprar petróleo - dinheiro que poderia ter sido gasto em bens americanos. Normalmente isto conduziria ao abrandamento económico, como aconteceu nos anos 70. Mas o Fed resolveu o assunto da forma mais míope possível. O excesso de liquidez tornou o dinheiro rapidamente disponível nos mercados de hipotecas, até para aqueles que normalmente não conseguiriam pedir emprestado. E, sim, isto impediu um abrandamento económico: a taxa de poupança privada na América desceu até zero. No entanto, deveria ser claro que estávamos a viver de dinheiro emprestado a tempo emprestado.
O corte na tributação dos ganhos de capital contribuiu para a crise de uma outra forma. Foi uma decisão que levantou questões éticas: aqueles que especulavam (leia-se, jogavam) e ganhavam eram taxados mais levemente do que aqueles que viviam de salários provenientes dos trabalhos árduos. Mas, mais do que isso, a decisão encorajou a alavancagem [investimento em acções através de empréstimos, elevando o risco da operação mas também as hipóteses de lucro] porque o juro era dedutível no imposto. Se, por exemplo, pedia emprestado um milhão para comprar uma casa ou colocava uma hipoteca de 100.000 dólares para comprar acções, o juro seria totalmente dedutível anualmente. Qualquer ganho de capital obtido pagava um imposto baixo - e possivelmente num futuro remoto. A administração Bush convidou abertamente ao excesso de empréstimos e crédito - e os consumidores americanos não precisavam de mais encorajamento.
Quarto: Falsear os números
Entretanto, em 30 de Julho de 2002, no acordar de vários escândalos - designadamente, o colapso da WorldCom e da Enron - o Congresso aprovou a lei Sarbanes-Oxley. Os escândalos envolveram todas as grandes firmas americanas de contabilidade, a maioria dos nossos bancos e algumas das nossas melhores empresas, e tornaram óbvio que tínhamos sérios problemas com o nosso sistema contabilístico. Para a maioria das pessoas, contabilidade é um assunto sonolento, mas se não podemos acreditar nos números de uma empresa, não podemos acreditar em nada acerca da empresa. Infelizmente, nas negociações que deram origem à lei Sarbanes-Oxley, foi tomada a decisão de não lidar com o que muita gente, incluindo o respeitável ex-chefe do SEC Arthur Levitt acreditava ser um problema implícito e fundamental: stock options1. As stock options têm sido defendidos por proporcionarem incentivos saudáveis no sentido da boa gestão mas, de facto, são apenas "incentivos de pagamento". Se uma empresa tem sucesso, o director executivo ganha grandes recompensas sob a forma de stock options; se uma empresa não tem sucesso, a compensação é quase igual, mas proporcionada de outras maneiras. Isto é suficientemente mau. Mas os problemas colaterais das stock options é que elas incentivam a má contabilidade: a gestão do topo tem sempre incentivo para distorcer a informação de forma a fazer subir os preços das acções.
A estrutura de incentivo das agências de rating também se provou perversa. Agências como a Moody's e a Standard & Poor's eram pagas pelas próprias pessoas que deveriam avaliar. Resultado, tinham todos os motivos para dar às empresas altas avaliações, numa versão financeira daquilo que os professores universitários chamam inflação de notas. Uma vez que os bancos de investimento lhes pagavam, as agências de rating acreditavam em alquimia financeira - aquelas hipotecas tóxicas avaliadas negativamente poderiam ser convertidas em produtos que eram suficientemente seguros para serem compradas pelos bancos comerciais e fundos de pensões. Vimos esta mesma falha das agências de rating na crise do Sudeste Asiático nos anos 90: altas avaliações facilitavam a entrada de dinheiro na região e de repente uma mudança súbita nas avaliações trazia a devastação. Mas os capatazes financeiros não prestaram atenção.
Quinto: Deixar Sangrar
O último ponto surgiu com a passagem do pacote de bailout [plano de resgate ou salvamento] em 3 de Outubro de 2008 - isto é, com a própria resposta da administração à crise. Sentiremos as suas consequências nos próximos anos. Tanto a administração como o Fed têm sido guiados por um desejo de optimismo, esperando que as más notícias sejam passageiras e que o regresso do crescimento esteja no virar da esquina. À medida que os bancos americanos enfrentaram o colapso, a administração mudou de uma para outra forma de acção. Algumas instituições (Banco Stearns, A.I.G., Fannie Mae e Freddie Mac) foram salvas. O Lehman Brothers não. Alguns accionistas conseguiram algo de volta. Outros não.
A proposta original do Secretário do Tesouro Henry Paulson, um documento de três páginas que daria 700 mil milhões de dólares ao secretário para os gastar à sua descrição, sem qualquer supervisão ou controlo judicial, foi um acto de extraordinária arrogância. Ele vendeu o programa como necessário para restaurar a confiança. Mas não lidou com as causas subjacentes à perda de confiança. Os bancos tinham feito demasiados empréstimos maus. Tinham grandes buracos nos seus orçamentos. Ninguém sabia o que era verdade e o que era ficção. O pacote de salvamento era como uma transfusão massiva de sangue para um paciente que sofria de hemorragias internas - e nada estava a ser feito sobre a origem do problema, nomeadamente, a execução das hipotecas. Desperdiçou-se tempo valioso enquanto Paulson empurrava o seu próprio plano, dando "dinheiro por lixo", comprando os maus activos e transferindo o risco para os contribuintes americanos. Quando finalmente o plano foi abandonado, oferecendo aos bancos o dinheiro que precisavam, Paulson fê-lo não só de maneira a enganar os contribuintes americanos, mas também falhou na definição de como os bancos deveriam gastar esse dinheiro. Até permitiu que os bancos retribuíssem os seus accionistas ao mesmo tempo que os contribuintes punham o seu dinheiro nos bancos.
Outro problema não resolvido dizia respeito à fragilidade da economia. Esta foi sustentada por um excesso de crédito. Esse jogo tinha acabado. À medida que o consumo se contraía, as exportações mantiveram a economia a funcionar, mas com o dólar a fortalecer-se e a Europa e o resto do mundo a declinar, tornava-se difícil de ver como isto poderia continuar. Entretanto, os estados enfrentavam quebras maciças nas receitas - teriam de cortar nas despesas. Sem uma acção rápida do governo, a economia estaria perante um abrandamento. E mesmo que os bancos tivessem emprestado sensatamente - o que não fizeram - o abrandamento significaria uma subida de más dívidas, enfraquecendo sector financeiro fragilizado.
A administração falava de construção de confiança, mas o que executou foi um truque de confiança. Se quisesse efectivamente restaurar a confiança no sistema financeiro, deveria ter começado por lidar com os problemas subjacentes - as estruturas de incentivos com falhas e um sistema de regulamentação inadequado.
* * *
Houve alguma decisão que, se tivesse sido revertida, teria mudado o curso da história? Todas as decisões - incluindo as decisões de não fazer alguma coisa, como foram muitas das nossas más decisões - são consequência de decisões anteriores, uma teia interligada que se estende de um passado distante até ao futuro. Ouvir-se-ão alguns da direita apontar certas acções do próprio governo - como a Lei Community Reinvestment, que requer que os bancos tornem o dinheiro das hipotecas disponível em bairros de baixos rendimentos (as falhas nos pagamentos dos empréstimos de CRA foram muito mais baixas do que outros). Tem havido muito apontar de dedos a Fannie Mae e Freddie Mac, os dois gigantes de empréstimos hipotecários que originalmente eram propriedade do governo. Mas, de facto, eles chegaram tarde ao jogo do subprime, e o seu maior problema era semelhante ao do sector privado: os seus directores executivos tinham o mesmo incentivo perverso para serem indulgentes no jogo.
A verdade é que a maior parte dos erros individuais partem de um só: a crença de que os mercados são autoreguladores e o papel do Estado deve ser mínimo. Olhando para trás, para essa crença durante as audiências neste Outono, no Capitol Hill, Alan Greenspan disse em alto e bom som: "Eu encontrei uma falha". O congressista Henry Waxman pressionou-o respondendo: "Por outras palavras, descobriu que a sua visão do mundo, a sua ideologia, não estavam correctos; não estava a funcionar." "Absolutamente, absolutamente", dizia Greenspan. A adopção desta filosofia falhada da economia pela América - e por grande parte do resto do mundo - tornou inevitável que finalmente chegássemos a este ponto.
Joseph E. Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, é professor na Universidade de Columbia
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Crise!!!
O CAPITALISMO NÃO RESULTOU, ARRANJEMOS OUTRA SOLUÇÃO!!!
ANTIFA!
ela - 15 dólares por um copo ?
Calvin - Sim, 15 dólares ! Queres um?
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
ela - Mas, como é que justificas 15 dólares por uma limonada ?
Calvin - Lei da oferta e da procura
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
ela - Mas, onde é que está a procura !? Não vejo nenhuma procura!
Calvin - Há muitíssima procura !
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
ela - Sim ?
Calvin - Claro ! Como único accionista nesta empresa, PROCURO enormes lucros para o meu investimento!
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
Calvin - E como presidente e manda-chuva desta empresa, PROCURO um salário anual exorbitante !
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
Calvin - E como sou o meu próprio empregado, PROCURO um alto salário e toda a espécie de regalias que a companhia possa dar ! E além disso hà gastos indirectos e custos de produção elevados!
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
ela - Sim, mas isso é apenas um limão dentro de água da torneira !
Calvin - Pois, mas tenho que reduzir os custos nalgum lado se quero ser competitivo
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
ela - E se fico doente por beber "isso" ?
Calvin - "Não há garantias" é o nosso lema ... Além disso, tinha que vendê-lo mais caro se tivesse que cumprir com a Sanidade e o Meio Ambiente!
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
ela - Tu estás é mal da cabeça ! Vou para casa beber uma coisa qualquer
Calvin - Está bem !! Deixa-me sem trabalho e sem negócio! É gente anti-sistema como tu é que arruína a economia!
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
____________ _________ _________ _________ _________ _________ _______
Calvin - Preciso de um subsidio.