segunda-feira, 24 de maio de 2010

Apertar o cinto – Estranha forma de vida

Texto de Francisco Silva, retirado de http://www.acomuna.net/index.php?option=com_content&task=view&id=377&Itemid=28

O nosso fado é este: apertar o cinto.

Endividamento extremo, perda de soberania, balança comercial para lá de negativa, abandono escolar gritante… Podia continuar a escrever todos os sintomas facilmente identificáveis de um País com o futuro comprometido.

A primeira questão que surge é de quem é a culpa? A direita responde-nos que a culpa é dos portugueses. “Os portugueses andaram anos a viver acima das suas possibilidades” diz José Dupond, ao que replica Pedro Dupont: “diria mesmo mais, andaram anos a viver acima das suas possibilidades e peço desculpa pelo PEC”.

Compraram casa, carro, trocaram a Caparica pela República Dominicana, investiram em cursos para os seus filhos, votaram sempre entre o PS e o PSD e o resultado está á vista.

Não conseguem pagar a casa, o carro só sai da garagem para ir à terra visitar a família porque os combustíveis são um luxo, os seus filhos não têm emprego e continuam em casa a viver com a ajuda dos pais e eles não se podem reformar porque as pensões para as quais descontaram toda a vida são precisas para tapar buracos orçamentais.

Começamos a chegar a algum lado: a culpa é então do português médio, segundo os nossos primeiros-ministros.

Definamos então o português médio. O português médio é do Benfica, católico e conservador embora libertino quando o Papa não está a ver. Trabalha para o Estado, é profissional liberal, tem o seu negócio ou pequena empresa. É trabalhador ao contrário do que se diz, empreendedor e poupado porque sabe bem o que passou para ter o que tem hoje. Paga impostos, mais por obrigação que por sentido de dever, e tem votado entre o PS e o PSD.

Considera o PS como um partido de diletantes e oportunistas mas que os salvaram tanto do Salazar como dos Comunistas. Considera que o PSD é o partido daquela gente dos negócios que sabe como ganhar dinheiro, os empresários de sucesso.

Assim sendo, tem votado maioritariamente entre estes dois partidos: num por ser o mal menor, noutro por vender o american dream de Dias Loureiro.

Foram estes os partidos que delinearam e executaram as políticas de e para o País nos últimos 30 anos, políticas essas que apresentam resultados desastrosos para a economia, para o desenvolvimento e para a soberania de Portugal.

Chegámos a outra constatação importante para adicionar á anterior: a culpa é do português médio que votou PS/PSD ao longo dos anos.

O português médio desliga da política assim que deposita o voto na urna e só volta a ligar na próxima campanha eleitoral, delegando a sua responsabilidade nos eleitos. Temos aqui um dado novo, se a responsabilidade do português médio é delegada nos eleitos, é justo delegar nestes a culpa do estado do País. A culpa da crise será então dos sucessivos governos PS-PSD aos quais o português médio confiou os destinos do País.

Mas mais importante que encontrar culpados é encontrar a razão principal desta crise. A crise não nasceu quando o português trocou o Algarve pelas Caraíbas, nem quando o português foi ao banco pedir um crédito para comprar umas ceroulas para não andar de tanga. Aplicando o axioma Dupond-Dupont (ou José Sócrates-Passos Coelho), chegamos então a uma conclusão: a crise nasceu e cresceu porque PS e PSD andaram a viver acima das nossas possibilidades.

Andaram anos e anos a gastar irresponsavelmente a parte do salário que o português entrega ao Estado, a esbanjar os lucros de privatizações e a volatilizar os fundos de coesão que recebemos dos nossos parceiros Europeus. A crise mundial só veio pôr a nu essa verdade.

Um dia vamos ser nós a dizer-lhes para apertarem o cinto: dia 29 é o dia!

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